Chamado ou fuga?
- Paola Donice

- 2 de fev.
- 4 min de leitura
Muitos de vocês sabem que, depois de vinte anos no mercado financeiro, eu tomei a decisão de deixar essa carreira para seguir um novo caminho. Antes de qualquer coisa, eu quero dizer obrigada.Obrigada por estarem aqui.Obrigada por se cadastrarem.Obrigada por demonstrarem interesse em acompanhar essa nova fase da minha vida. Não é pouca coisa caminhar junto quando alguém decide mudar de rota. Tomar uma decisão assim — trocar o certo pelo incerto, o conhecido pelo desconhecido — nunca é simples. Em geral, somos mais inclinados a mudanças profundas quando algo não vai bem. Quando surge um desconforto. Um incômodo persistente. Uma sensação de desalinhamento que não se resolve com descanso, férias ou pequenas correções de rota. Eu acredito profundamente que Deus permite certos desconfortos justamente para nos mover. Para nos tirar de lugares onde, sozinhos, talvez nunca teríamos coragem de sair. Ainda assim, existe uma linha muito tênue — e muitas vezes confusa — entre o chamado e a fuga. Será que queremos mudar porque estamos sendo chamados…ou porque estamos apenas tentando escapar? Essa pergunta me acompanhou por quase dois anos. Eu me questionei muitas vezes se o desejo de mudar vinha de um impulso legítimo de construção — ou se era apenas uma tentativa de fugir do cansaço, da exaustão e do vazio que eu sentia. Foi nesse período que comecei a estudar com mais profundidade o tema da vocação. Em uma dessas leituras, me deparei com o famoso exercício japonês do Ikigai — que propõe conciliar quatro dimensões:aquilo que você gosta de fazer,aquilo em que você é bom,aquilo pelo qual podem te pagar,e aquilo de que o mundo precisa. À primeira vista, tudo parece muito bonito. Quase um mapa seguro para encontrar o “trabalho ideal”. Mas, quanto mais eu refletia, mais algo me incomodava. Aquilo não era um exercício de vocação.Era um exercício de escolha profissional. A vocação é algo mais profundo.Mais exigente.Mais arriscado. Foi então que outra leitura mudou completamente a minha forma de ver esse tema: a biografia de Simão Pedro, escrita por Jorge Chevrot. Esse livro foi decisivo para mim. Ali eu entendi que o chamado verdadeiro passa por três dimensões muito claras. A primeira é o chamado propriamente dito — aquilo que arde no coração, quase como uma convocação interior. No caso de Pedro, o chamado foi explícito: Jesus, em carne e osso, olha para um pescador comum e diz:“Segue-me. Agora serás pescador de homens.” No meu caso, o chamado não veio com essa clareza sobrenatural. Mas havia algo insistente dentro de mim: o desejo de fazer um trabalho que tocasse mais profundamente a vida das pessoas. Que ajudasse a restaurar sentido. Que trouxesse esperança. A segunda dimensão são as habilidades — aquilo que Deus nos deu e que desenvolvemos ao longo da vida. Capacidades reais, concretas. No meu caso, a capacidade analítica sempre foi muito útil no mercado financeiro. Assim como Pedro passou de pescar peixes a “pescar homens”, eu também sinto que estou atravessando uma transição: deixo de analisar o que leva uma empresa ao sucesso e passo a analisar o que leva pessoas ao sucesso — ou seja, a terem uma vida plena e com sentido. Muda o objeto, mas a capacidade permanece. E a terceira dimensão — talvez a mais decisiva — são as circunstâncias. O contexto em que estamos inseridos não é acidental. Ele é o solo onde a nossa vocação amadurece. A melhor semente do mundo não floresce se não encontrar o substrato adequado. Talvez, se eu não tivesse testemunhado tão de perto o adoecimento emocional de pessoas extremamente inteligentes, competentes e bem-sucedidas…se eu não tivesse visto relações se desfazendo, vazios se aprofundando, vidas perdendo sentido mesmo no “topo”… talvez eu não tivesse compreendido a urgência de falar sobre isso. Foi ali que tudo começou a fazer sentido. Como diz Aristóteles, tudo na vida possui uma finalidade. Nada existe por acaso. E compreender essa finalidade é parte essencial de uma vida bem vivida. Claro, a finalidade última de todos nós é Deus — viemos Dele e para Ele retornaremos, como ensina São Tomás de Aquino.Mas cada um de nós também é chamado a responder a esse destino eterno de uma forma concreta, única, encarnada na própria história. Essa reflexão me deu paz. Ela me ajudou a entender que essa decisão não era uma fuga.Era uma resposta. Eu sigo caminhando um dia de cada vez — com temor, com prudência, mas também com esperança. E sigo profundamente animada em construir o Alma Ordenada: uma empresa que nasce com a missão de trazer a espiritualidade para o cotidiano, de forma prática e acessível. Vivemos em uma época em que cuidamos muito do corpo.Cuidamos um pouco da mente.Mas negligenciamos quase completamente o espírito. E quando a dimensão espiritual é ignorada, o vazio aparece.A ansiedade cresce.O sentido se perde. Eu acredito, de verdade, que uma vida mais plena passa por cuidar bem dessas três dimensões — corpo, mente e espírito — e por viver com a certeza de que estamos caminhando em direção a algo maior do que nós mesmos. Este espaço — esta newsletter — nasce com esse propósito:ser um lugar de reflexão, de partilha e de amadurecimento.Um lugar onde eu vou dividir aprendizados, leituras e descobertas dessa nova jornada. Se você quiser, eu fico muito feliz em ler seus comentários e sugestões. Deixo abaixo as redes sociais do Alma Ordenada para estarmos mais próximos.Essa caminhada será muito mais bonita se for compartilhada com pessoas como você. Um grande abraço,e até a próxima semana. Paola |

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